Para fazer os próximos carros elétricos, as marcas estão a partilhar tecnologia entre si. Será que, no futuro, um Alfa Romeo será igual a um Dacia?…

 

Os construtores de automóveis estão num beco sem saída, no que aos carros elétricos diz respeito. São obrigados a desenvolver novas tecnologias nessa área, com investimentos enormes. Mas têm que continuar a investir também na redução de emissões dos motores térmicos, pois as vendas dos elétricos ainda são residuais. Como é lógico, não há dinheiro para tudo. Como resolver o problema?…

Partilhar tecnologia

A maneira encontrada por várias marcas tem sido associarem-se umas às outras e partilharem as suas tecnologias. Um dos exemplos mais recentes e mais impressionantes foi o acordo feito entre a VW e a Ford, para a partilha da nova plataforma para carros elétricos da VW, a já célebre MEB.

Mas não se trata apenas da parte estrutural. Quando falamos da plataforma de um carro elétrico estamos a falar de… tudo. Inclui motores, baterias, eletrónica, suspensões, transmissão. A única coisa que fica de fora será o estilo da carroçaria.

Pode parecer estranho que, depois do investimento que fez para chegar a uma plataforma preparada para revolucionar a oferta de modelos elétricos, a VW tenha agora dado acesso a todos os seus “segredos” industriais a outro grande construtor.

Mas aquilo que tem a ganhar é muito maior do que aquilo que tem a perder. Como o próprio Herbert Diess, CEO da VW afirmou acerca desta aliança “este acordo baixa os custos de desenvolvimento para veículos de zero emissões” acrescentando também que “será melhorada a eficiência dos gastos, aumentado o crescimento e beneficiada a competitividade.”

Aumentar a produção em mais 60%

Na realidade, a utilização da MEB pela Ford, que irá construir o seu modelo elétrico numa das suas fábricas europeias, significa um volume de mais 600 000 veículos por ano a partilhar os mesmos componentes. A juntar ao prometido milhão anual a produzir pelas marcas do grupo VW, o potencial de sinergias é mais do que óbvio.

Toyota partilha ainda mais cedo

Apesar de continuar muito empenhada no alargamento e desenvolvimento da sua gama de modelos híbridos, que a coloca numa posição privilegiada para a procura crescente que esta tecnologia vai ter nos próximos anos, a Toyota também já anunciou o que vai fazer quanto aos elétricos puros.

Para começar, a Toyota juntou-se mais uma vez à Subaru para a produção de uma plataforma elétrica, e-TNGA. E a Mazda também já disse que está interessada em aderir ao programa.

Por outro lado, a Toyota está a trabalhar com a Daihatsu e a Suzuki numa outra plataforma elétrica mais pequena.

Quando os dois maiores grupos automóveis mundiais tomam iniciativas deste género, fica bem claro o tipo de desafios que têm pela frente.

Investir agora e ficar à espera

O maior desafio é a desfasagem temporal entre os investimentos necessários para desenvolver melhores carros elétricos e a subida da procura por este tipo de produtos. Sozinho, o marketing não vai conseguir resolver tudo.

Por isso, não é de estranhar que as marcas de prestígio estejam a fechar acordos semelhantes. É sabido que a BMW e a Jaguar Land Rover estão a trabalhar juntas em componentes para carros elétricos. Enquanto isso, a JLR está envolvida num consórcio britânico para a construção de uma fábrica de baterias no Reino Unido.

Talvez o anúncio mais mediático dos últimos tempos tenha sido o que disse que a BMW e a Daimler vão trabalhar juntas no âmbito dos serviços de mobilidade, tendo sido focado o caso da condução autónoma como uma das prioridades.

Este tipo de associação tem ainda a vantagem fulcral de diluir o risco entre os vários parceiros. E quando falo de risco falo da possibilidade de os veículos elétricos não serem o futuro.

Um construtor que embarque sozinho nesta aventura, sobretudo escolhendo uma plataforma exclusivamente elétrica, como a MEB, está muito exposto a este risco. Por isso a VW se juntou à Ford. Mas se as coisas correrem mal, não vai ser a Ford a ajudar a pagar o investimento inicial.

Carros todos iguais

Claro que as “joint-ventures” entre marcas de automóveis não são nada de novo, há muito que servem para o mesmo fim de aumentar as sinergias, reduzir os custos e aumentar os lucros.

Mas a mesma ideia aplicada aos automóveis elétricos irá inevitavelmente contribuir para uma homogeneização dos modelos das diferentes marcas.

Se as diferenças entre os motores térmicos sempre foram fáceis de perceber, gerando preferências da parte dos consumidores, dificilmente isso se irá passar num carro elétricos.

Distinguir entre um motor de quatro ou de seis cilindros, entre um boxer ou um V8, tornou-se numa questão cultural, pelo menos para quem gostas de automóveis.

As diferenças entre os motores elétricos não são tão óbvias, nem têm efeitos práticos e emocionais relevantes. Ninguém vai discutir apaixonadamente se um motor elétrico é síncrono ou assíncrono…

Conclusão

É mais que provável que os compradores de automóveis se desinteressem cada vez mais pela mecânica. O seu interesse pelos automóveis ficará reduzido ao estilo e à imagem de marca.

Quer isto dizer que a acusação que andamos a ouvir há muito, de que “hoje os carros são todos iguais” se irá acentuar no futuro? Será que o título, assumidamente provocatório, desta crónica poderá um dia ser realidade: um Alfa Romeo poderá vir a ser mecanicamente igual a um Dacia, exceto pelo estilo e pelo preço?

A lógica diz que sim, mas nem tudo na indústria automóvel se rege pelas mais elementares leis da lógica. Mesmo quando forem todos elétricos, os automóveis vão ter sempre uma componente emocional, nunca vão ser apenas eletrodomésticos.

Francisco Mota

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