Procura de "chips" supera 30% a oferta

Falta de "chips" atinge os automóveis

Fábricas a parar por falta de "chips"

Autoeuropa vai parar e perder 5700 carros

Vendas de eletrónica de consumo a subir absorvem mais "chips"

19/3/2021. Fábricas de automóveis estão a parar e não é por causa da Covid-19. Agora é a falta de “chips” eletrónicos, a nível mundial. E a culpa é dos smartphones.

 

Quando a primeira vaga da pandemia levou à paragem das fábricas de automóveis, os construtores cancelaram ou adiaram as encomendas que tinham com os seus fornecedores. Não era possível fabricar carros, nem os fornecedores podiam fabricar componentes.

A passagem ao tele-trabalho e ao ensino à distância em confinamento, levou a uma subida na procura de eletrónica de consumo, como computadores portáteis, tablets, smartphones, consolas de jogos e televisões.

Hoje em dia, qualquer carro utiliza dezenas de circuitos integrados, os chamados “chips”, para quase todos os sistemas a bordo, desde o comando do motor, aos sistemas de informação e entretenimento, passando pelos sistemas de segurança e auxílio à condução.

A crescente complexidade dos carros modernos torna-os totalmente dependentes dos circuitos integrados: sem os “chips” não se pode fabricar automóveis e as fábricas param.

Fábricas param por falta de “chips”

É o que tem vindo a acontecer nas últimas semanas, com várias marcas a anunciar a paragem da produção das suas unidades fabris, como é o exemplo da AutoEuropa, em Palmela. A fábrica anunciou que vai deixar de produzir 5700 carros, devido à paragem de seis dias.

A fábrica portuguesa da Volkswagen foi obrigada a parar porque alguns dos seus fornecedores não têm “chips” disponíveis para fabricar os componentes necessários aos carros.

Como se chegou até aqui? Como sempre, as razões são várias mas a mais importantes tem que ver com o peso da indústria automóvel no mercado dos “chips”, relativamente à eletrónica de consumo.

Automóveis têm pouco “peso”

O conjunto de todos os fabricantes de automóveis necessita de uma pequeníssima parte da produção mundial de “chips”, que tem na eletrónica de consumo o seu maior cliente.

Por isso, quando as vendas de eletrónica de consumo crescem e as dos automóveis descem, é normal que os produtores de “chips” atribuam prioridade aos primeiros. São as leis do mercado.

Acrescem outros fatores, desde logo a grande dependência da indústria automóvel, nesta como noutras áreas, de fornecedores asiáticos.

E, neste caso, de uma empresa em particular, a TSMC de Taiwan, que fornece, só por si, 70% dos “chips” mais sofisticados, necessários à indústria automóvel.

TSMC domina o mercado

Apesar desta posição dominante, apenas 3% de toda a produção de “chips” da TSMC é destinada à indústria automóvel. A esmagadora maioria dos seus produtos vai para a electrónica de consumo.

Mas a TSMC também teve problemas de produção decorrentes do confinamento, o que se torna mais relevante quando se sabe que a empresa produz cerca de 50% de todos os “chips” mais sofisticados, no mercado mundial.

E com as vendas da eletrónica de consumo a subir, é natural que a TSMC se concentre em dar resposta aos seus principais clientes, tanto mais que se estima que a procura de “chips” esteja neste momento 30% acima da capacidade de produção.

Com este cenário, não é de admirar que tenha deixado os fabricantes de automóveis e seus fornecedores para segundo plano.

Automóveis dependentes da Ásia

Esta situação revela mais uma vez a dependência dos construtores de automóveis de fornecedores asiáticos, uma situação a que se chegou pela via da procura da redução de custos. Se se pode comprar mais barato na Ásia, porquê fabricar na Europa?…

O problema já está a ser tratado a nível governamental, com alguns governos, como o da Alemanha, a pedirem ao governo de Taiwan que interceda junto da TSMC para alocar mais “chips” aos construtores de automóveis alemães.

A Comissão Europeia também já foi chamada a agir. O pedido dos construtores é o de sempre: querem apoios. Querem financiamento para se construir na Europa fábricas capazes de produzir os “chips” mais sofisticados que se fazem em Taiwan, nem que seja numa “joint-venture” com a TSMC.

Outras dependências

Na verdade, a questão tem um paralelo com as baterias para os carros elétricos, tanto ao nível de dependência de fornecedores asiáticos, como das exigências de ajudas governamentais para instalar fábricas de células de baterias na Europa.

O problema está a afetar gravemente os construtores baseados na Europa e não só; e as expetativas para o decorrer de 2021 são de que se agrave ainda mais, pois a eletrónica de consumo deverá continuar a crescer nos próximos meses, com o prolongamento do confinamento.

O que se podia ter feito

Podia a indústria automóvel ter feito alguma coisa para evitar esta situação? Podia. Maior investimento na produção local, para não ficar tão dependente da Ásia, teria sido uma boa ideia. Mas à custa da descida dos lucros, que já não são grandes.

Podia também ter assegurado uma maior diversidade nos fornecedores de “chips”, mas para isso teria que investigar a quem os seus fornecedores os compram, o que não é fácil. Nem há outros produtores como a HSMC.

Conclusão

Este episódio da falta de “chips” é apenas um exemplo da dependência da indústria automóvel de fornecedores asiáticos. O que se está a passar agora com a eletrónica pode vir a repetir-se com inúmeros outros componentes e deveria servir como um sinal de alerta.

Francisco Mota

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